


O leite é o primeiro alimento na nossa vida.
Beber leite é um hábito alimentar tão antigo como a própria sedentarização do Homem e foi mantido ao longo de toda a história da humanidade, até aos dias de hoje.
ESSÊNCIA
O leite materno
Imediatamente após o nascimento, o leite materno é, durante vários meses, o único alimento que reúne todos os nutrientes necessários à subsistência e à protecção imunitária.
É ainda transportador de uma poderosa carga emocional, sendo através dele que o bebé experimenta os primeiros contactos com o mundo: vínculo mãe-filho (que se estabelece durante a amamentação), gosto, cheiro, tacto.
Após a amamentação
Após a amamentação, a nossa relação com o Leite não termina, nem poderia terminar, dado o seu extraordinário valor como alimento.
Além de ser fonte de nutrientes importantes para o crescimento, desenvolvimento e manutenção do organismo, beneficia a saúde de quem o consome, facto comprovado pelo seu longo histórico de consumo e evidenciado pela ciência.
O Leite juntamente com os seus derivados (queijo, iogurtes, manteiga) forma um elenco de alimentos muito completos e equilibrados, já que da sua composição fazem parte nutrientes fundamentais.
Por isso é legitimamente considerado um alimento de eleição para uma alimentação saudável de crianças e adultos de todas as idades.
CURIOSIDADES HISTÓRICAS
Na Antiguidade Clássica
O consumo de leite animal na alimentação humana remonta a tempos pré-históricos, concretamente ao Neolítico, e constitui um facto civilizacional que marca o início da sedentarização.
Na Antiguidade Clássica o consumo de leite estava limitado à utilização de leite fresco em virtude deste ser um produto perecível. A dificuldade de conservação deste alimento era, portanto, um óbice ao seu consumo mais massivo.
Porém o leite tinha uma larga utilização na culinária, sendo um dos componentes de inúmeros pratos e doces, como o famosíssimo manjar branco, os manjares exóticos com registo no livro de cozinha da infanta D. Maria, no Tratado de Domingos Rodrigues e, já no séc. XVIII, em Lucas Rigaud e na sua moderna visão da gastronomia portuguesa.
A partir do século XIX, o leite passou a entrar, de forma sistemática, na confecção de pratos de carne, de peixe, de legumes e até de sopas. Ao mesmo tempo, o café com leite vulgarizou-se como acompanhamento privilegiado de refeições.
Concomitantemente, ao longo dos séculos, o leite foi considerado também um alimento possuidor de capacidades curativas diversas merecendo, por isso, referências nas obras de médicos célebres como Dioscórides, Hipócrates e Galeno.
Ele foi utilizado, de facto, na prática clínica como benéfico, adjuvante e até terapêutico durante muitos séculos, preservando ainda, actualmente, excelente reputação. No próprio século XX é utilizado, por exemplo, nas dietas dos doentes internados, na terapêutica de úlceras do estômago, etc.
Por fim, na própria história da poesia, da literatura, da arte e até na religião há referências elogiosas ao leite, o que traduz não só a sua presença no quotidiano como a sua elevada valorização como alimento.
De facto, sabemos, por exemplo, como são abundantes nos textos proféticos e bíblicas as referências a este delicioso produto:
”Dar-te-ei, a ti, e aos que ouvirem a minha voz, a terra onde correm arroios de leite e de mel” disse Deus a Moisés.
Josué não deixa, igualmente, de sublinhar para a História e o tempo longo: “Durante os quarenta anos de marcha por aquela vastíssima solidão do deserto, vieram a morrer os que não tinham ouvido a voz do Senhor, e aos quais ele antes tinha jurado que lhes não mostraria a terra que manava o leite e o mel”.
No conhecido livro das Lamentações de Jeremias, aí mesmo se fala nas mulheres mais alvas do que a neve, mais nítidas do que o leite, assumindo-se, no tempo longo, este conceito de beleza de que a nossa própria literatura medieval se tornará em eco permanente requerendo da mulher que seja clara e branca como o linho e como o leite; leite que, aliás, também desempenhou, juntamente com o mel, um lugar de relevo nos cuidados de beleza, citado por autores latinos que muito escreveram sobre regras e artifícios do amor.
Maomé teria dito que “sonhar com leite, é sonhar com a ciência ou com o conhecimento”.
No séc. XVI a pintura portuguesa revela-nos o martírio de S. Catarina que é decapitada pelo carrasco, notando-se que é leite e não sangue o líquido que jorra do seu corpo. O que dá um sentido místico a esse primeiro elemento em que a vida se condensa e em que todos os outros existem em estado potencial e é símbolo da abundância, da fertilidade, do conhecimento e da imortalidade.
A literatura portuguesa não esquece tão prodigioso alimento. Gil Vicente cita-o em diversos autos e comédias. E basta que deixemos correr a memória pela excelente prosa de Camilo que punha os abades a comer malgas de sopas de leite servidas por criadas e amantes; pelas referências tão repetidas e sugestivas de Eça de Queiroz, etc.
Século XX e a Pasteurização
A evolução tecnológica permitiu, no século XX, pasteurizar e ultrapasteurizar sem retirar benefícios ao leite, o que permitiu facilitar-lhe o acesso e conduziu à massificação do seu consumo não só como alimento de validade curta, mas também de média ou longa duração.
Hoje em dia, o leite é acessível a todos e constitui um dos alimentos mais completos, quer em termos nutricionais, quer em termos da multiplicidade de utilizações que pode ter.